sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

ALZHEIMER


08-02-2013

Maldito monstro que corrompes
Toda a dignidade e memória
Do que se é e se foi
Que levas oculto no teu ventre
Todas as lembranças de uma vida
Destróis o certo e o errado
Que fazem parte dum ser.
Por ti, pelos teus enleios e meandros
Tantas vezes ela pergunta e chama
Pelo outro que há muito partiu
“Onde está o teu pai?”
Por causa de ti besta incógnita e demente
Pergunta quem sou ou onde estou
Estando eu à sua beira inclinado
Acariciando seu sedoso e branco cabelo.
Criaste não sei com que propósito
Um mundo próprio e vazio
Vazio de sentir e de recordações.
Essas recordações que nos foram tão caras
Construídas com carinho e labor
Que deram razão à existência,
Vão-se apagando lentamente
Numa voracidade sem limites e sem destino.
Tornaste a força de um ser brando
Numa fragilidade mordaz e vegetal.
Transformaste a inteligência em demência,
A alegria e vontade num vazio ôco de nada.
Consegues o que nenhum homem,
Ditador ou perverso ser 
Fez da dignidade humana,
Retirar do cérebro e da mente
A única coisa verdadeiramente sua.
A liberdade de pensamento
E de agir seguindo eles em passos certos.
Tornaste a vida do dia a dia
Num morto-vivo andante
Sem rumo, sem eira nem beira.
Apareceste sem se dar por isso,
Teimas em ficar permanente!
Como ao demónio te renego,
Mas como um dragão invisível que és
Não posso como desejaria
Trespassar-te com uma espada
E enterrar-te de vez no fundo dum vulcão.
Mas podes ter a certeza
Vil monstro desprezível
Que nunca ma roubarás,
Nem de mim a separarás
Porque só algo que não conheces,
Porque és odioso e horrendo,
Te poderá combater com virtude
O amor por esse ser que irá até ao fim!


1 comentário:

  1. Li... diz-me muito tb minha mãe! Comovi-me. Tb continuo afagando seus cabelos brancos...e a chamar-lhe mãe , sem que saiba o que digo.

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