quarta-feira, 14 de outubro de 2026

no topo do mundo

quero espreitar o mundo lá fora, 

ou será lá dentro,

estarei eu lá fora

ou cá dentro?


pouco importa,

não vejo sombras nem cavernas,

que assustem a minha curiosidade

só a quero alimentar sofregamente


e descobrir o que mais haverá 

para lá do chão onde habito,

estava muito frio lá em baixo

só quero subir e ver o sol


caso ele não esteja com a lua

brincalhando às escondidas





quarta-feira, 9 de outubro de 2024

MADRUGADAS

Uma vida que vai,

indo sem parar

ou ilusões sonhar,

num lamento que já não há,

dum tempo que já não existe

para amarguras ou suspiros.

 

Tormentos não vistos,

ou encontrados no meio

duma chuva que não cai.

Só o calor tórrido e seco

das nuvens que não se vêm,

dos ventos que não sopram.

 

Meu corpo vive

a vida que se não vive.

O sentir só, de nenhum sentir.

o amar, de nada ter para amar.

O correr pela estrada fora

sentido apenas o contravento.

 

Pela brisa brejeira do sonho

e no calor da noite te perder,

irás embora e começarei de novo.

Serei apenas nada, do nada que ficou,

do muito que poderia ser

se algo pudéssemos ter sido.

 

(Adriano Costa, Julho / 1984)






segunda-feira, 7 de outubro de 2024

RECADO A UM AMIGO

Amigo,

nunca digas que

finalmente és livre.

Quando a liberdade

se nos parece

mais livre que antes

logo novos grilhões

te hão de prender

e sentirás na carne

a dor de te sentires traído.

Quando o azul da claridade

te aparecer diante dos olhos,

será fraca a luz da verdade.

O trono da “sabedoria”

é invejado e aliciante,

decerto que não pelos sacrifícios

pois as promessas

e desejos de antes

são esquecimentos e delícias

quando se sente depois

o conforto

da cadeira brilhante do poder.

É fácil dizer-te que és livre,

mas ainda é mais fácil

lançar-te na confusão

e aprisionar-te no mundo das trevas.

A tua liberdade

é uma emoção pouco extensa

porque a cruel realidade

é a certeza do teu fim,

só quando lá chegares

podes ter uma certeza.

Só então, poderás enfim ser livre

Por todo o tempo e todo o espaço.

Mas mesmo assim

não poderás gritar,

nem alto baixo

que és livre finalmente,

porque nesse fim,

já nada poderá fazer-te ouvir.

 

10/10/1974



quarta-feira, 4 de setembro de 2024

castelo de areia

não tenho medo de viver

nem tenho medo de morrer

não tenho medo do risco vencer

como não tenho medo dele sofrer

 

não tenho medo de sentir

nem tenho medo do amor

não tenho medo se da lua ele surgir

como não tenho medo do seu fulgor

 

                              tenho medo, sim

                              medo dos medos dos outros

                              em depois de mergulhar

                              no mar doce feito de mel

                              no próprio amor me afogar

                              e trazido pela onda na areia

                              o castelo de sonhos derramar



ou talvez não...

talvez não seja medo...

quem sabe... 

talvez seja assim...

talvez amanhã....

o sol volte e aqueça

e de novo a lua brilhará 


                        afinal...

                        quando era criança

                        levados pelas ondas do mar

                        quantos castelos fiz e refiz


                                e essa criança ainda está viva...

                                ...sem medos...


 

(04/09/2024)






quinta-feira, 8 de agosto de 2024

o vira batido

e vai um dia, vai outro dia

e vai mais um ainda,

e foram meses e anos,

uma vida inteira de sonhos

(levados na poeira do tempo)


e vai uma volta, vai outra volta

e vai mais uma ainda,

e foi uma roda inteira

nas voltas do carrocel

(de que a vida feita é)


corres a eito um caminho

e tropeças na encruzilhada,

às vezes ficas em vão caído

sem vontade de seguir

(e na mente obscuras nuvens)


ergues o olhar no horizonte,

tão longe que parece estar,

mas vês a esperança num dia

de alimentar essa utopia

(quiçá consigas a volta voltar a dar)


quantas vezes deste o pão

e ficaste com as migalhas,

mas vem lá mais um dia

e mais uma volta a dar

            (para trás ficou o sal)


            (e entras na roda outra vez)

            (e danças, e danças corrido)

            (tens mais um dia, e outros mais)

            (e tens ainda tantas voltas a dar)


(Adriano Costa – 08/08/2024)






segunda-feira, 22 de julho de 2024

os teus versos nos meus

 

não vi os teus olhos

ou os teus lábios,

e o teu rosto

esconde-se docemente

atrás duma janela

 

mas sonho-os em mim

 

sei,

porque mo disseste,

que o amor é vida

como a vida é amor

presente mesmo ausente

 

e eu os sonho em mim

 

encanto-me nesse teu jeito

de jogar com jeito as palavras,

em surpreenderes

naquele enfeite e efeito

no último refrão

 

sorrindo eu no meu sonho

 

não, não te vi ainda

nem aos teus olhos

ou os teus lábios

mas sinto a tua essência

e leio embevecido

o teu límpido interior

 

e o fascínio do meu almejado sonho

 

e os sonhos que trazes em ti

os dessa criança viva,

que não esqueceu

e os quer viver

como vivê-los sempre o quis

 

parecem os meus os teus sonhos

 

ah quem me dera,

quem me dera que deixasses

eu correr e levar-te por esse céu

e feitos duas crianças

oferecer-tos feitos flores

 

os teus sonhos,

 

que afinal

sempre foram os meus




quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

deles cubro o meu leito

 

de mil fronhas de memórias

e sete pedaços d’alma

costurei uma manta de retalhos

que intimamente formam o tempo;

 

aquelas enchi-as com o que já vivi

envoltas como almofadas

onde repousam os feitos do passado

e servem de apoio e saber;

 

os outros, bem maiores e centrais

enrobustecidos pelas dores e alegrias

formam a essência de toda a coberta

não se vêm, mas sentem-se e dão vida

 

- ao tempo que foi e ao que há de vir.

 

(Adriano Costa / Janeiro, 2022)