quarta-feira, 9 de outubro de 2024

MADRUGADAS

Uma vida que vai,

indo sem parar

ou ilusões sonhar,

num lamento que já não há,

dum tempo que já não existe

para amarguras ou suspiros.

 

Tormentos não vistos,

ou encontrados no meio

duma chuva que não cai.

Só o calor tórrido e seco

das nuvens que não se vêm,

dos ventos que não sopram.

 

Meu corpo vive

a vida que se não vive.

O sentir só, de nenhum sentir.

o amar, de nada ter para amar.

O correr pela estrada fora

sentido apenas o contravento.

 

Pela brisa brejeira do sonho

e no calor da noite te perder,

irás embora e começarei de novo.

Serei apenas nada, do nada que ficou,

do muito que poderia ser

se algo pudéssemos ter sido.

 

(Adriano Costa, Julho / 1984)






segunda-feira, 7 de outubro de 2024

RECADO A UM AMIGO

Amigo,

nunca digas que

finalmente és livre.

Quando a liberdade

se nos parece

mais livre que antes

logo novos grilhões

te hão de prender

e sentirás na carne

a dor de te sentires traído.

Quando o azul da claridade

te aparecer diante dos olhos,

será fraca a luz da verdade.

O trono da “sabedoria”

é invejado e aliciante,

decerto que não pelos sacrifícios

pois as promessas

e desejos de antes

são esquecimentos e delícias

quando se sente depois

o conforto

da cadeira brilhante do poder.

É fácil dizer-te que és livre,

mas ainda é mais fácil

lançar-te na confusão

e aprisionar-te no mundo das trevas.

A tua liberdade

é uma emoção pouco extensa

porque a cruel realidade

é a certeza do teu fim,

só quando lá chegares

podes ter uma certeza.

Só então, poderás enfim ser livre

Por todo o tempo e todo o espaço.

Mas mesmo assim

não poderás gritar,

nem alto baixo

que és livre finalmente,

porque nesse fim,

já nada poderá fazer-te ouvir.

 

10/10/1974