1990
De porcelana
são feitos os vasos,
recortes de feitos pintados
pelos tempos lembrados
e de outros feitos,
ainda não feitos
mas já perfeitos
antes de o serem.
De porcelana
são feitos os pratos,
rasos ou de sopa,
de migas de pão
desfeitos,
ou de duro pão
amassado.
De porcelana
são algumas taças
feitas,
de glórias perdidas,
ou de apostas
corrompidas,
de carne comida
ou do osso sobrado.
De porcelana
também
são feitos certos tachos,
mais fundos
ou mais largos,
conforme os ensopados;
mais cebola
ou menos pimento,
mas todos o choram
ao mesmo tempo.
Na porcelana
se pode cozer,
carne fresca
e maleável,
em vinte minutos
de fervura,
ou jardineira
liofilizada
em pó, instantânea,
pronta a cozinhar,
em qualquer altura
ou em qualquer lugar.
Há porcelanas naturais,
fortes no tempo
e na experiência,
ganhando com isso
consistência
(e vendem-se até nas feiras).
E há porcelanas finas,
de luxo,
feitas antes do tempo,
onde lavram
a ouro,
palavras bonitas
e a preceito,
que se vendem no Harrod’s
ou no shoping talvez.
Umas puras,
feitas de argila
e caulino,
prontas a ir ao forno,
resistentes ao calor.
As outras
em marketing facturadas
a jeito,
mas que sem jeito
arranjam jeito
de ir a coquetéis
e eventos nocturnos,
com ditos doutos
e professores,
que riem
de pança cheia,
de finesse
porcelânica,
aproveitando,
claro está,
o timbrar paladino
do oleiro
maganão.
Qual se quebrará?
Só o tempo o dirá!

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