quinta-feira, 1 de março de 2012

MITOS E LANTEJOULAS

1990

De porcelana
são feitos os vasos,
recortes de feitos pintados
pelos tempos lembrados
e de outros feitos,
ainda não feitos
mas já perfeitos
antes de o serem.

De porcelana
são feitos os pratos,
rasos ou de sopa,
de migas de pão
      desfeitos,
ou de duro pão
    amassado.

De porcelana
são algumas taças
                feitas,
de glórias perdidas,
ou de apostas
 corrompidas,
de carne comida
ou do osso sobrado.

De porcelana
         também
    são feitos certos tachos,
    mais fundos
      ou mais largos,
      conforme os ensopados;
    mais cebola
      ou menos pimento,
    mas todos o choram
      ao mesmo tempo.

Na porcelana
se pode cozer,
     carne fresca
         e maleável,
    em vinte minutos
          de fervura,
    ou jardineira
            liofilizada
    em pó, instantânea,
    pronta a cozinhar,
   em qualquer altura
   ou em qualquer lugar.

Há porcelanas naturais,
fortes no tempo
e na experiência,
ganhando com isso
      consistência
(e vendem-se até nas feiras).

E há porcelanas finas,
                   de luxo,
    feitas antes do tempo,
    onde lavram
               a ouro,
    palavras bonitas
       e a preceito,
    que se vendem no Harrod’s
    ou no shoping talvez.

Umas puras,
feitas de argila
        e caulino,
    prontas a ir ao forno,
    resistentes ao calor.

As outras
em marketing facturadas
                         a jeito,
mas que sem jeito
arranjam jeito
de ir a coquetéis
e eventos nocturnos,
com ditos doutos
    e professores,
que riem
    de pança cheia,
de finesse
    porcelânica,
aproveitando,
       claro está,
o timbrar paladino
        do oleiro
        maganão.

Qual se quebrará?
Só o tempo o dirá!


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