1988
Os espíritos da languidão me perseguem,
a sonolência e a apatia se apoderam de mim,
embrenhando-me na paisagem vislumbrante
de bois pastando e ruminando pachorrentamente,
indiferentes a todo o redor,
sacudindo sincronizadamente,
ruminantemente,
insectos e dejectos
feitos de excrementos da Natureza,
tal como eu quilométricamente,
vou enchotando do pensamento
todos os fantasmas obscuros
imaginários ou reais,
que me afligem e me enjeitam
desta sociedade e colectividade que não escolhi.
É perigoso!
É terrivelmente perigoso caminhar,
assim tão junto à natureza que nos criou
e nos chama a cada momento,
conduzindo pela mão esta nave
que tanto pode atravessar
as fronteiras do espaço e do tempo,
como o limiar breve e brusco
da agonia e da morte,
por onde ela parece levar-nos
a cada esquina, a cada curva.
Bem sei que tenho um seguro de vida,
mas bem que podiam pôr um rádio no raio do carro!

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